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segunda-feira, 8 de abril de 2013

O bastante



 


O cinema é uma das minhas paixões. Desde pequeno sou fascinado por essa sétima arte. Lembro-me que quando era pequeno (em torno de uns dez anos) ficava horas e mais horas em uma videolocadora local admirando as capas dos filmes ali expostos. O dono percebendo meu entusiasmo me convidou a “trabalhar” como atendente no balcão de sua videolocadora. Foi uma experiência fantástica que me lembro até hoje. Meu salário? Nada. Mas podia levar para assistir nos finais de semana de sete a oito filmes! Para um garoto dessa idade, isso foi um tentame surreal.
Assim, escrevo logo abaixo uma mensagem retirada do blog “Cinema em Cena” do meu crítico brasileiro de cinema favorito, Pablo Vilhaça:
Assistindo ao fraco documentário Tales from the Script, que entrevista dúzias de roteiristas enquanto tenta atrapalhadamente retratar as dificuldades enfrentadas por estes profissionais, me surpreendi com um imenso nó na garganta ao ouvir o roteirista/diretor Bruce Joel Rubin descrevendo sua experiência com o drama Minha Vida (do qual gosto muito, mas que foi muito mal recebido por público e crítica na época de seu lançamento). Claramente emocionado, o cineasta diz (tradução do autor):
“O estúdio me mandou um pacote com todas as críticas e comecei a lê-las e todas eram socos abaixo da linha da cintura. E eu desabei. Desabei por meses depois que aquele filme foi lançado. Acreditei que aquele era o maior fracasso da minha carreira. Ele não arrecadou como o estúdio queria, não alcançou os resultados que eu queria, as críticas foram péssimas… E aí, mais ou menos nove meses depois, uma mulher se aproxima de mim em uma festa e diz: ‘Meu marido morreu de câncer há um ano. E meu filho e eu nunca discutimos o assunto. Meu filho tinha 12 anos e não conseguia falar sobre isso. Agora ele tem 13 anos e eu estou com câncer e tenho seis meses de vida. Mais ou menos uma semana ou duas depois que seu filme foi lançado, meu filho e eu fomos vê-lo. Quando o filme acabou, voltamos para casa e ele estava em prantos. Ele se encolheu em meu colo e tivemos a conversa que eu precisava ter antes de deixar este mundo. E isso não teria acontecido sem o seu filme. Então… obrigada.
    Nesse momento, algo aconteceu comigo. E naquele instante eu percebi que… tinha feito o filme para ela. E isso era o bastante.”
Como professores nos sentimos exatamente como Bruce Joel Rubin. Nosso trabalho é criticado por quase todos como se fossemos culpados pelo sistema educacional vigente, não somos valorizados, ao contrário, nos sentimos na maioria das vezes um completo fracasso...  E muitas vezes parece que ensinamos para um aluno em sala de aula. Professores, não desanimem, façamos como o diretor/roteirista do filme “Minha Vida”: “eduquemos nem que seja para um... E isso já será o bastante...”

domingo, 31 de março de 2013

Pérolas do ENEM (Para rir ou chorar?)

Pérolas do ENEM (Para rir ou chorar?)

Estava em casa por esses dias navegando pela internet (como Colombo pelo Atlântico) e num desses sites de notícias diárias esquizofrênicas (aquelas nas quais as notícias vão rolando de uma maneira absurdamente rápida) deparei-me com duas pérolas.
A primeira “manchete-pérola” dizia “Redação com hino do Palmeiras tira nota 500 no Enem 2012”. Confiram um trecho da dita cuja abaixo: 



A segunda “manchete-pérola” dizia: “Candidato escreve receita de miojo na redação do Enem e tira nota 560”. Confiram novamente abaixo:

 

Quando li essas notícias, não sabia se ria ou chorava. Pensei comigo mesmo: na primeira redação, se o candidato escrevesse o hino do meu glorioso Corinthians talvez ele tirasse 1000, mas como foi o hino do Palmeiras... Na segunda redação, o candidato cometeu um erro gravíssimo... Esqueceu-se de colocar o saquinho do tempero do miojo na receita e talvez por esse motivo tirou só 560.
Mas falando sério. Até quando nós educadores perpetuaremos e apoiaremos um sistema de ingresso ao ensino superior através de um mecanismo que já nasceu obsoleto e esdrúxulo como esse? Como ficam os corações e as mentes de milhares de jovens que se prepararam durante anos ao verem redações como essas com pontuações significativas?
Meus caros leitores o pior ver agora. O MEC declarou que ambas as redações não “fugiram do tema proposto” e assim não foram demasiadamente penalizadas, declarações essas contrárias aos próprios redatores que escreveram via redes sociais que esperavam a anulação de tais redações por essas brincadeiras e ainda tiraram chacota dos estudantes que se prepararam com afoito para o ENEM do ano passado. É mole...


Ao simples toque de um botão





Hoje em dia estamos vivendo uma “Tacocracia”, ou seja, estamos vivendo uma “Ditadura do Rápido” e as conseqüências disto são desastrosas.
Comecemos pela família. As famílias de nossos pais e de nossos avós tinham como centro da casa a taipa do fogão de lenha e a mesa de jantar, na qual todos comiam juntos, olhavam–se e discutiam assuntos importantes ou banais. As crianças brincavam com a comida (embora com comida nunca se brinque, ainda mais em um país com uma desigualdade social extrema como o nosso), enfim, tudo era uma festa só.
A família de hoje tem como o centro da casa não mais a mesa de jantar ou a taipa do fogão, mas a televisão de plasma de 42 polegadas com controle remoto luminoso. Na hora do almoço - se é que ela existe – cada um come no seu território demarcado no sofá assistindo a um programa de televisão. Detalhe: nem precisam levantar para mudar de canal, o controle remoto faz tudo. Depois de se alimentarem voltam todos a sua rotina escaldante, afinal de contas “tempo é dinheiro”.
Na escola não é diferente. Lembro-me com prazer de quando estudava na escola Francisco Gomes de Souza dos maravilhosos livros da série Vagalume: A montanha encantada, A ilha perdida, O rapto do garoto dourado, Zezinho, o dono da porquinha preta e tantos outros que lia com o maior prazer do mundo...
Na escola de hoje, se o professor pede para que um aluno leia e faça um resumo do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, o aluno aparece no dia seguinte com um resumo extraído de algum site na internet. Para um aluno hoje ler 130 páginas de um livro é “perca de tempo” ou acontece o pior... Ele aparece dizendo: “Professor por causa de você eu perdi o meu final de semana inteiro lendo o livro que você pediu”. Para o aluno ele não ganhou conhecimento, cultura, mas perdeu o seu precioso e inestimado “tempo”.
Na sociedade acontece o mesmo. Lembro-me de uma frase escrita em uma camiseta há tempos atrás: “Viva todos os dias de sua vida como se fosse o último, pois um dia você acerta”. As pessoas hoje buscam o prazer pelo prazer. Tenho que ser feliz hoje, dizem elas, pois o amanhã não se sabe. Esta forma de ver as coisas e o mundo simplesmente está matando a nossa juventude. Os jovens de hoje não tem sonhos, nem para o outro - seja ele a sociedade ou o seu vizinho – nem para si mesmo.
Em 2004 o psicólogo da USP Yves de La Taillle fez uma pesquisa em uma escola pública, com adolescentes dos três anos do ensino médio. Inicialmente pediu para eles que escrevessem quanto quisessem sobre o que desejariam ser, como gostariam de viver, imaginando-se daqui a dez anos de maneira ideal. Portanto, a pergunta se inseria no campo ético, focalizando a questão do projeto de vida. De posse dos textos, ele os dividiu em dois grupos: aqueles cujo projeto de vida incluía o outro, fosse para o outro ou com o outro (claro que ele não considerou os casos em que havia apenas uma instrumentalização do outro – eu quero ter uma mulher linda, um marido rico etc.) e aqueles em que o outro não aparecia.
O resultado foi que em um terço dos textos havia referência ao outro, mas em dois terços não. Ou seja, dois terços daqueles adolescentes tinham projetos de vida em que o outro não aparecia nem com, nem para, como também não havia menção á idéia de justiça. Típico da idade? Não. Hoje é freqüente ouvir que adolescente é autocentrado, mas se formos ler os textos sobre adolescentes da década de 1960, vamos notar que, muito pelo contrário, eles eram vistos como jovens preocupados com a sociedade, com o futuro da humanidade. Aliás, não era esse o tema central da contracultura?
Assim, não gosto de refletir, por quais caminhos e aonde iremos chegar, pois acredito que o caminho se faz caminhando. Hoje ando devagar porque um dia já tive pressa dizia Almir Sater. E antes que o leitor já se inquiete com esse pequeno texto vou ficando por aqui.

IDESP e sua crucificação moral




 No dia 28 de março (última quinta-feira) o governo paulista divulgou a bonificação dada aos docentes através do Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (IDESP) que é um indicador de qualidade das séries iniciais (1ª a 4ª séries) e finais (5ª a 8ª séries) do Ensino Fundamental e do Ensino Médio das escolas públicas do estado de São Paulo, calculado a partir de dois eixos complementares: o desempenho dos alunos nos exames do SARESP e o fluxo escolar.
Pois bem, por volta do meio-dia desse mesmo dia, olhei meu extrato bancário para conferir minha bonificação. Foram exatos R$ 74,19. Observando esse valor impresso no extrato bancário, vieram a minha lembrança todas ás noites mal dormidas, todas às noites em claro pensando e repensando minha prática pedagógica, todas as leituras feitas para minha qualificação profissional, todas às horas escolares doadas em favor da busca de uma aprendizagem significativa para os alunos, todos os cursos e capacitações obrigatórias de que participei, enfim, toda à luta por uma educação de qualidade para meus alunos. 
Lembrei-me também de meus companheiros docentes e gestores de jornada? O que dizer deles? Quantos gestores e professores presenciei – principalmente os de Língua Portuguesa e Matemática - concentrados e muitas vezes obcecados para que a escola tivesse um aprendizado por excelência e assim como eu, obtiveram uma ridícula bonificação.
Continuando minha divagação com o extrato em mãos, imaginei-me em uma sala, em uma ocasião qualquer, dizendo com os punhos cerrados ao senhor Herman Jacobus Cornelis Voorwald, ilustríssimo secretário da educação do estado de São Paulo e a todos os gestores que estivessem presentes o seguinte: Unespiano como você, sua meritocracia existente na educação é esdrúxula e criminosa. Criminosa porque puni e maltrata moralmente, milhares de docentes pelo Estado afora, que batalham por uma educação de qualidade muito além de suas capacidades tanto físicas como emocionais. Senhores gestores educacionais estaduais presentes, professores por excelência já são heróis nesse Estado que apresenta um sistema educacional caduco, arcaico, cujas raízes remontam a segunda metade do século XVIII, nós não precisamos de incentivos financeiros para melhor trabalharmos. Isso já está em nossa veia, em nosso coração, pois somos professores - ou todos vocês acreditam que escolhemos essa profissão para ficarmos milionários? (ou como dizia Paulo Freire: ninguém escolhe ser professor, é a profissão que nos escolhe). Na verdade, o que precisamos são de inúmeras condições adequadas que a educação paulista não nos oferece.
Senhores gestores educacionais estaduais presentes, como vocês têm a arrogância de avaliarem todo o trabalho de um ano letivo escolar inteiro através de uma “prova” que nem contempla todas as disciplinas ministradas em uma escola?    
Por fim, ao final de toda minha reflexão sobre esse encontro imaginário, um vazio tomou conta de mim. Picotei o extrato bancário com o pífio valor contido nele, dei as costas e fui embora do banco, sentindo-me e pensando como Jesus crucificado nessa semana de Páscoa: “Pai- perdoa-lhes, porque realmente eles não sabem o que fazem”...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O Serviço Social e a Educação



O Serviço Social criado em 1933 no Brasil, representa hoje uma das contribuições sine qua non mais significativas e importantes para a sociedade brasileira e mais especificamente para a educação brasileira, mas que infelizmente a máquina pública e a maioria dos que se enquadram nela não sabem utilizá-la.
Primeiramente, o Serviço Social é um curso na área das humanidades e por conta disso sua principal função é colaborar com o processo de transformação da sociedade através da sua atuação. Assim sendo, as boas universidades e faculdades de Serviço Social têm no centro de seu curso discussões de autores como Marx, Webber, Gramsci, Foucault, Pedro Demo, Paulo Freire, Celso Furtado e tantos outros.
Porém, infelizmente a maioria dos assistentes sociais após a sua formatura confrontam com uma triste realidade. Longas discussões acaloradas, embate de idéias, seminários, metanóia, toda a reflexão acerca do comportamento do homem como ser social e como colaborar com o mesmo em seu processo de mudança discutido ao longo dos anos de estudo dá lugar à instrumentalização totalmente técnica da profissão, ou seja, o assistente social é visto por grande parte dos gestores federais, estaduais e municipais e também por boa parte dos juízes como técnico emitindo pareceres e só. Desse modo, o lugar da atuação do assistente social passa a ser atrás de um balcão ou mesa como um burocrata preenchendo papéis sobre condições socioeconômicas de famílias, realizando estudo social para concessão de benefícios tais como: medicamentos, óculos, órteses, complementação alimentar, auxílio-moradia, energia, água, próteses, cartão alimentação e realizando avaliação sócio-econômica para inclusão em programas sociais como: renda cidadã e bolsa família e mais o que sua imaginação mandar. 
Através dessa visão errônea que a máquina pública - e quase todos do que dela fazem parte - possui do assistente social eles acabam por decretar o fim dos sonhos desses profissionais em almejar por uma sociedade justa e fraterna, ou seja, para quem estuda Marx ficar atrás de um balcão concedendo benefícios sociais é no mínimo ultrajante! Grosso modo, é como pedir ao professor para ficar todo o ano letivo preenchendo cadernetas. Piaget? Paulo Freire? Esqueça tudo isso. O importante é caderneta preenchida e ponto. Uma coisa é algo fazer parte do trabalho, outra coisa é pensar que o algo é puramente o trabalho em si.
Além desse primeiro aspecto, essa visão errônea que quase todos os gestores em qualquer esfera do poder público possuem do assistente social, acabam obrigando-os na maioria das vezes a prestarem um (des) serviço à sociedade, como ocorre na África no quais especialistas vêm analisando seriamente a possibilidade de que as doações mais atrapalham do que ajudam a população africana. A idéia pode parecer absurda à primeira vista, afinal, estamos falando de dinheiro enviado a uma sociedade pobre cuja economia deveria ser beneficiada. Porém, a consequência desse auxílio é o sufocamento de pequenas iniciativas de comércio em razão da grande oferta gratuita. Um exemplo bastante ilustrativo é o do empresário americano Jason Sadler que, em 2010, criou uma campanha para arrecadar camisetas que seriam enviadas a crianças na África. Tanto ou mais do que as gigantescas doações, Sadler foi bombardeado por críticos que diziam que essas peças de roupas enviadas ao continente iriam debilitar a competitividade de todos os comerciantes de tecidos e roupas locais. Afinal, quem iria gastar com uma peça que pode ser obtida de graça? Os negócios iriam à falência e, a longo prazo, os filhos desses empresários continuariam sempre dependentes da boa vontade alheia. (Revista Veja 20/08/2011).
Subjugar o assistente social a mero “concessor de benefícios” é irritante e escárnio. Destarte, além de todo o reducionismo imposto a sua profissão, o assistente social no Brasil se vê humilhado - em meio a um jogo sujo-politiqueiro que ocorre principalmente às vésperas das eleições – sendo obrigado a conceder benefícios a pessoas por questões politiqueiras ou de fidelidade partidária ou quando concomitantemente muitos de seus relatórios são completamente ignorados pelos mesmos motivos politiqueiros. Obviamente que toda essa atitude influencia na opinião negativa que grande parte da população possui sobre o assistente social visto ora como um “vilão” que cortará benefícios, ora como um “juiz carrasco” que retirará guardas de crianças indefesas. Não é a toa que muitos desses profissionais são agredidos verbalmente e fisicamente por pessoas ignorantes e maldosas que não entendem que na maioria das vezes o problema é orgânico e que o assistente social é só a ponta de um iceberg gigantesco e incólume.
Já na área educacional, ainda que vários municípios possuam assistentes sociais em escolas de educação infantil e fundamental, na maioria das vezes a inserção do trabalho desses profissionais não considera sua capacidade de transformação social. Leva-se em conta, mais uma vez, somente sua capacidade técnica em emitir pareceres e mais pareceres, relatórios e mais relatórios.
A contribuição do Serviço Social na educação vai muito além disso. Em vez do trabalho do assistente social se limitar a discernir em quem deva receber algum benefício ou não a verdadeira atuação do assistente social seria como uma espécie de tutor na mediação da problemática financeira da família buscando uma resolução. Em vez da concessão de algum benefício porque não ir à raiz do problema, ou seja, porque a família precisa daquele benéfico e como ajudá-la a sair de uma situação de vulnerabilidade social que se encontra naquele momento?
Óbvio que o trabalho do assistente social não é fácil como o do professor também não.
Contudo, apesar de todos esses problemas refletidos vejo no horizonte algumas ações (mesmo que paliativas) da verdadeira atuação (penso eu) do assistente social na sociedade e principalmente na educação. Tomara que nossos gestores nas esferas federais, estaduais e municipais – principalmente ligados a educação - entendam da importância desse profissional para nós educadores e que a presença em cada escola de um ou de vários assistentes sociais, se torne imprescindível não para resolver problemas disciplinares, entre outros, como infelizmente ocorrem na maioria das escolas por esse Brasil afora, mas para trabalharem com grupos, formando cidadãos afim de que problemas sociais tão graves não surjam a posteriori e que finalmente todos os profissionais dessa área voltem às raízes dessa profissão tão nobre surgida no seio da Igreja Católica que tem como expoentes pessoas como Madre Teresa de Calcutá e Irmã Dulce que tanto souberam “cuidar” dos menos favorecidos...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

ENEM, vestibulares e a arrogância universitária



Talvez um dos piores males existentes no pífio sistema educacional brasileiro é a existência de vestibulares e mais recentemente do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) criado pelo MEC (Ministério da Educação) que nada mais são do que provas elaboradas para selecionar os “melhores” estudantes para as diversas universidades brasileiras.
Vários são os pontos calamitosos acerca da insistência das universidades e do MEC nesse tipo de seleção universitária.
Para início de conversa, o problema já se inicia na elaboração das provas. A maioria dos vestibulares e mesmo o ENEM são organizados por uma banca universitária formada em sua maioria por professores também universitários que terão a incumbência de preparar questões para estudantes do ensino médio. Aqui já começam os problemas. Primeiro, quem elabora os vestibulares e por conseqüência o ENEM são professores que em sua maioria nunca estiveram ou trabalharam em escolas do ensino médio ou no mínimo estão cinco, dez anos longe delas. A conseqüência disto são questões feitas e ordenadas com o mais desprovido senso realístico do aprendizado ocorrido no ensino fundamental e médio no Brasil. São inúmeras questões mal feitas, mal escritas, mal formuladas nas quais muitas delas tratam de assuntos que não apresentam nenhuma importância significativa para os vestibulandos. Segundo, a elaboração dos vestibulares e também do ENEM leva em consideração o fim de um processo, ou seja, grande parte dos “intelectuais” em educação que estão nas universidades cobram dos professores do ensino fundamental e médio que a ação avaliativa seja freqüente ao longo do processo de ensino-aprendizagem mais fazem justamente ao contrário através dos vestibulares e do ENEM, ou seja, condenam a avaliação bimestral ou o “provão” mais o que seria um vestibular? Pelo menos, a maioria das provas são bimestrais e os vestibulares? 
Outro ponto a ser refletido é como uma prova feita em quatro horas, cinco horas pode ser capaz de avaliar o aprendizado escolar que dura no mínimo 12 (doze) anos! Ora, isso é injusto e totalmente surreal. Imagine a provação sobre um estudante que tem sua carreira escolar de tantos anos definida por uma “prova” feita por um professor que nunca viu. Quantos casos conheço de estudantes que se prepararam durante anos e na hora do vestibular esqueceram tudo - deu branco, como dizem – ou simplesmente passaram por alguma enfermidade como dor de cabeça, diarréia atrapalhando seu desempenho na hora da prova.
      Finalizando, mencionaremos um artigo do grande educador Lauro de Oliveira Lima, intitulado “Vestibular”, publicado no jornal "O Povo" de Fortaleza, no ano de 1990, que esclarece sua posição sobre esta metodologia criada em 1911, há cento e um anos atrás.
      “Todo mundo sabe que o exame vestibular é o processo mais inautêntico possível para avaliar quem deve entrar na Universidade, com uma agravante: a ameaça do exame vestibular corrompe o sistema escolar todo, a partir do jardim de infância - basta lembrar a múltipla escolha e as cruzadinhas adotadas em todos os graus, cursos e séries. Dez anos de escolaridade são desprezados, com centenas de avaliações parciais, por algumas horas de provas cujos resultados são aleatórios.
      O exame vestibular é uma desmoralização para o magistério (...) não entendo porque o magistério jamais protestou contra esta desmoralização. Os julgamentos feitos nos doze anos de escolaridade são suspeitos! Milhares de professores promovem alunos, dão notas, avaliam seu aproveitamento... tudo em vão? Será que uma comissão de professores tem mais credibilidade para determinar o ingresso dos mais capazes na Universidade?
      Por que não valorizar os resultados escolares desde o primeiro ano, ano por ano, acumulando-se as avaliações que se irão auto-corrigindo? São dezenas de mestres opinando sobre o aluno, durante doze anos. Poder-se-ia mesmo introduzir um julgamento referente à capacidade do aluno e um prognóstico sobre sua futura vida escolar. Desde cedo os pais tomariam conhecimento das probabilidades de seu filho conquistar a Universidade. (...) Poderiam interpelar os mestres sobre os julgamentos feitos, dando extrema seriedade ao diagnóstico, agora vigiado pela sociedade. O sistema escolar ganharia um novo tônus. Sabendo-se que os resultados parciais, ao longo da escolaridade, são contabilizados para o ingresso na Universidade, todos darão maior seriedade ao processo escolar”

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A falência da educação brasileira



Há anos que já venho escrevendo sobre a falência do vigente modelo de sistema educacional brasileiro. Apostilas, livros didáticos, lousa, giz, provas, ênfase em conteúdos programáticos, sinal, aulas, vestibulares, câmeras de vigilância, entre outros são reflexos e resquícios de uma educação que já está falida. Se quisermos que nosso país avance rumo a uma educação de qualidade precisamos como sociedade, pais, educadores, gestores, deixarmos os desfibriladores de lado e pararmos de tentar ressuscitar a todo preço algo que já não funciona mais há décadas e enquanto não enxergarmos isso todo nosso esforço será em vão.
Um dos resquícios da falência do modelo de sistema educacional implantado no Brasil é a utilização de livros didáticos, apostilas ou coisas do gênero pela maioria das escolas.
Assim sendo, acompanhei através de jornais e pela internet as correções do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) outra tragédia educacional brasileira - realizado neste ultimo final de semana. Percebi que inúmeros professores desses mais renomados “cursinhos” reclamaram do tema da redação desse ano que foi “O movimento imigratório para o Brasil no século XXI” alegando que (1) o tema é de difícil compreensão por parte dos alunos e que (2) a maioria dos livros didáticos ou apostilas não discorrem sobre tal assunto por ser muito atual.
Esse é um dentre inúmeros motivos pelos quais o uso de livros didáticos e apostilas é prejudicial ao aluno e ao professor. Outros motivos relacionados são: (1) a má qualidade na impressão de certos livros didáticos/apostilas; (2) o conteúdo errôneo de diversas informações trazidas pelos livros didáticos/apostilas; (3) o engessamento da prática pedagógica do professor face ao cumprimento ou término da apostila/livro didático; (4) o crescimento da concepção de que o aprendizado ocorre única e exclusivamente através da memorização/escrita, já que muitos pais acreditam que apostila cheia ou livro didático preenchido é conhecimento adquirido; (5) a noção esdrúxula de que todos aprendem da mesma maneira e no mesmo ritmo como peões em uma fábrica têxtil, ou seja, ensinam-se a todos como se fossem um; (6) grande parte de coleções de apostilas e livros didáticos são elaborados – pasmem! - por professores que no mais alto de sua cátedra jamais pisaram sequer em uma sala de aula do ensino fundamental ou médio elaborando questões, situações de aprendizagem ou atividades estapafúrdias e grotescas que nem crianças super animadas são capazes de fazê-las por serem simplesmente “chatas”.
Poderíamos citar outros numerosos motivos apontados por inúmeros educadores para decretarmos o fim da utilização dos livros didáticos e apostilas pelas escolas. Soma-se a isto o fato de que as melhores escolas do mundo e do Brasil não utilizam esse tipo jurássico de material.  Por fim, Lauro de Oliveira Lima, grande educador cearense brasileiro escrevia em 1995: “(...) O livro didático, de modo geral, é um livro feio, mal escrito e mal desenhado, mediocremente impresso, um verdadeiro objeto “kitsch”, brega, (...) um produto rastaquera de uma copiosa indústria, alegando-se que “é disto que os professores gostam. (...) Nele não há nada de novo, nem de coerentemente velho. (...) Adotado por um mediador, como se fosse uma receita médica. (...) Se o professor não é oligofrênico, de tanto ler certos livros, acaba ficando. (...) A escola é, sabidamente, uma defasada agência de informação…”.
         Se um marciano levasse da Terra um “livro didático” para avaliar o nível mental dos terráqueos, seus superiores certamente chegariam à conclusão de que o ser humano, usando esse tipo de instrumento didático, é débil mental!... Não se sabe por que as editoras vomitam anualmente (o livro didático dura um ano letivo) este montão de estupidez mal impressa e mal encadernada, o único livro que a maioria dos alunos jamais usará. Por que não entregar aos alunos lindos e modernos manuais que eles guardarão e consultarão para o resto da vida? Em algumas escolas, no final do ano letivo, os alunos picam os livros didáticos e comemoram a passagem do ano com esse tipo de confete de segunda classe. O livro didático é bem a mostra gráfica do baixo nível do sistema escolar brasileiro”.